Quando o silêncio alimenta o que adoece a sociedade
Hoje eu quero fazer um desabafo — não daqueles leves, mas dos que nascem da alma cansada de ver tanto descuido travestido de normalidade.
Sou psicóloga há muitos anos. Já acompanhei quase mil famílias e vi de perto o quanto a dor se disfarça de rotina, o quanto o “tá tudo bem” mascara vínculos frágeis e infâncias em sofrimento. Já vi crianças mamando doze mamadeiras por dia, meninos de nove anos ganhando chupetas novas depois de uma avaliação, e mães que amam, mas não sabem mais como cuidar de si — e por isso, sem perceber, desorganizam o cuidar do outro.
E o que tudo isso tem em comum?
Essas mães não são más. Elas são boas pessoas, como eu e você.
Mas estão presas a padrões que não percebem — e é aí que nasce o problema.
“A gente se culpa por coisas que não estão ao nosso alcance, e ignora o que realmente precisa ser transformado.”
O que me motivou a escrever este texto
Depois de investir tempo, energia e dinheiro construindo um espaço que fala de autoconhecimento e transformação, decidi finalmente começar a publicar.
Meu último post, um desabafo sincero sobre o que estamos fazendo de errado como sociedade, alcançou mais de 300 curtidas.
E sabe qual foi a primeira mensagem privada que recebi?
Um convite sexual.
Não era uma brincadeira.
Era assédio.
E o mais triste é que o homem da foto estava abraçando uma menina — talvez sua filha, neta, aluna.
O que isso revela sobre nós
Aquilo me revoltou.
Mas mais do que isso, me confirmou que estou no caminho certo.
Porque esse tipo de atitude não nasce do nada — nasce de uma sociedade adoecida, que aprendeu a objetificar o outro, a usar as pessoas como meios, não como seres.
Quando uma mulher é reduzida a um corpo, quando o que ela fala é ignorado, quando sua importância é medida pelo desejo que desperta — a humanidade perde um pedaço de si.
A objetificação é o que permite as maiores atrocidades da nossa história.
É o que justifica guerras, violências, estupros, e o tráfico humano.
E o mais assustador: é o que se esconde nas pequenas atitudes cotidianas, quando alguém é tratado como um objeto — seja um filho, um colega, ou uma mulher falando o que precisa ser ouvido.
Por isso eu quero falar — e incomodar
Eu poderia continuar publicando só o que agrada, as frases bonitas e neutras que não ferem ninguém.
Mas eu não quero mais ser a “psicóloga queridinha”.
Eu quero ser a profissional que provoca reflexão, que ajuda as pessoas a crescerem de verdade, mesmo que isso cause desconforto.
Foi por isso que nasceu o projeto Mães Más, que está em construção — um espaço para mulheres reais, que amam, erram, e estão cansadas de fingir que dão conta de tudo.
Um lugar para quem quer se desconstruir e se reconstruir, passo a passo, com coragem e consciência.
O que eu acredito
Eu acredito que podemos mudar — mas só quando olhamos para o que dói.
Quando paramos de justificar o injustificável.
Quando reconhecemos que o outro não está aqui para nos servir, mas para caminhar conosco.
“Ser humano é ver o outro como alguém que sente, pensa e merece ser respeitado — sempre.”
E mesmo diante de tudo isso, eu escolho continuar acreditando.
Acreditando que podemos ser uma sociedade mais compassiva, amorosa e justa.
Que podemos criar crianças mais saudáveis se formarmos adultos mais conscientes.
E que vale a pena falar — mesmo quando incomoda.
Um convite para você
Se esse texto te tocou, te irritou ou te fez pensar — ótimo.
É assim que a transformação começa.
Vamos parar de nos calar.
Vamos olhar o que estamos fazendo uns com os outros.
Vamos ouvir mais, julgar menos e agir com mais amor e responsabilidade.
Afinal, a mudança começa em quem tem coragem de olhar para dentro.


